A era das "novelas de autor"
Não há dúvidas que as novelas brasileiras são o principal produto da TV nacional. Com anos de prática no segmento, nossa televisão acabou por formar um time de primeira quando o assunto é escrever um bom folhetim. Mas há um porém: nosso “time de craques”, com grandes tramas no currículo, acabaram por desenvolver seus próprios estilos, o que acabou deixando as novelas mais previsíveis.
É fácil perceber: vem Gilberto Braga por aí? Então devemos ter uma trama urbana, com temas polêmicos e atuais, personagens bem construídos, com histórias paralelas e argumentação bem amarradas. Gilberto também é adepto do “quem matou?”. Ele já “matou” Odete Roitman, o barão Sobral, Lineu Vasconcelos, Otacílio Fraga... Se a novela for de Gloria Perez, espera-se uma trama rocambolesca, que muda à vontade do público. Temas da atualidade, personagens populares que carregam bordões e uma protagonista batizada com um nome que vai virar moda (quantos bebês ou cachorros não foram batizados de Dara, Jade ou Sol?).
De Benedito Ruy Barbosa espera-se uma trama rural, ou que fale de imigração, ou as duas coisas. E que seus conflitos sejam solucionados bem antes do fim da trama, o que vai gerar uma sensação de vazio no público e fará a novela se arrastar até chegar ao final.
Manoel Carlos é a previsibilidade em forma de autor. Se a novela é dele, sabemos que haverá uma Helena que mora no Leblon, que a trama será conduzida com muita bossa nova e que haverá centenas de nós a serem desatados, mas que jamais o serão (ou serão apenas na semana final da novela). Páginas da Vida é a prova: há dois meses do fim, nada aconteceu. Olívia não está com Léo, Tide não tem um caso com Tônia, as adolescentes não engravidaram. Mas ainda vai acontecer, espere! Manoel Carlos é o autor do “ainda vai”.
Silvio de Abreu, autor de comédias das sete, também imprimiu novo estilo às 21 horas. Ele prefere novelas em que os personagens sejam dúbios, tramas policiais cheias de mistério e a solução do caso guardada para o último capítulo.
Aguinaldo Silva é o único que busca um novo caminho. “Herdeiro” de Dias Gomes, o autor ficou famoso ao emplacar sucessos que abordaram o realismo fantástico, com histórias que se passavam numa pequena cidade do Nordeste, todas próximas de Serro Azul, cujos moradores falavam com sotaques carregados e personagens bizarros e misteriosos, como o Cadeirudo, habitavam. Lembre-se de Pedra Sobre Pedra, Fera Ferida, A Indomada e Porto dos Milagres. Mas agora, Aguinaldo Silva voltou-se à tramas urbanas, sem espaço para realismo fantástico. Sua primeira incursão neste universo, Suave Veneno, foi um fiasco. A segunda, porém, foi um dos maiores sucesso da Globo na faixa das 21 horas, Senhora do Destino. Silva inovou ao apresentar uma história protagonizada por personagens de classe média e concentrar sua trama na baixada fluminense. Continuará neste rumo com Duas Caras, sua próxima novela, prevista para o fim do ano.
Estes são os autores que se revezam na faixa das 21 horas da Globo, mas o “estilo” dos novelistas pode ser percebido também em outros horários e em diferentes emissoras (Carlos Lombardi e suas comédias “rápidas”; Tiago Santiago prefere cenas de ação, com polícia e perseguições; Antonio Calmon prefere temas sobrenaturais). O interessante deste fato é o vínculo afetivo que o autor acaba criando com o telespectador. A audiência já sabe o que o espera na novela de seu autor favorito. Mas é importante a aposta em novos autores, já que a renovação é que garante o futuro do gênero.
FÉRIAS! Este blogueiro continua em férias! Mas volto semana que vem, repercutindo as principais notícias sobre TV da semana e apresentando mais um artigo sobre a programação da televisão brasileira. Até lá!
Escrito por André San às 13h36
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